Por Pe. Demétrio Morais 

Quando eu era criança, sonhava em ser policial, certamente, por influência da presença do meu irmão mais velho, Ivan, que é policial militar. Eu brincava “instaurando inquéritos” para averiguar a morte de galinhas, e outros animais; lembro que até “interroguei” dois cachorros inutilmente, eles se reservaram ao direito de ficar em silêncio, até hoje, o crime não foi solucionado…. Coisas que somente são compreensíveis no universo de uma criança. Mas, um fato inesperado, fez com que eu abandonasse o sonho que era meu e, que por alguns anos, alimentei. Meu irmão Ivan, em setembro de 1992, sofreu um atentado, que por pouco não pôs fim a sua vida. Momento difícil foi aquele para minha família. Importante, neste período, foi a assistência espiritual que nos foi dispensada pelo Padre Assis Inácio e, mais tarde, pelo Padre Pedro Gomes Bezerra, de saudosa memória, que esteve próximo de nossa família, inclusive mobilizando a comunidade, para a superação da violência que ameaçava a serenidade e a paz de algumas famílias da época. Indispensável, foi sem dúvida a fé de minha mãe (Dona Expedita), que motivou-nos a rezar o Santo Terço em família, todo início de noite.

Alguns anos depois, surgia a Rede Vida de Televisão e, minha mãe passou a acompanhar religiosamente toda a programação buscando alento para as dificuldades que enfrentávamos em decorrência do atentado sofrido por meu irmão; num certo dia, assistindo a Rede Vida, foi então que ela fez-me uma pergunta que foi fundamental para abrir caminhos para o discernimento do chamado de Deus em minha vida. Ela perguntou-me se eu não queria ser missionário, ao que eu prontamente respondi sim. Seguramente, nem ela, nem tão pouco eu, tínhamos consciência da seriedade e profundidade deste diálogo. A partir daquele dia comecei a pensar seriamente nesta possibilidade, e desde aquele momento, meus irmãos passaram a cobrar de mim uma vivência que estivesse em acordo com a missão que eu me propusera abraçar e, sempre que eu comportava-me mal, diziam: “e é esse que vai ser missionário agindo assim?…”. Em outras ocasiões, minha irmã Cristina chamava-me carinhosamente de “projeto de padre”, e tudo era sempre encarado com espírito fraterno.

Outro momento marcante deu-se num Domingo de Ramos, início da Semana Santa. A procissão, naquele ano, saiu da Capela Nossa Senhora da Assunção, recém construída. Ao chegar na Capela deparei-me com alguns de meus colegas, que já se encontravam vestidos de túnica, representando os 12 apóstolos. Ao vê-los, provei de uma inquietação indescritível. Perguntava-me: por que não estou ali? E, como nunca, senti vontade de participar mais ativamente da vida de minha Igreja. Na época, como não havia um carro de som, o Sr. Celso Amaro, que era Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão Eucarística, havia disponibilizado o seu automóvel: um fusca, onde foram improvisadas 2 difusoras, que eram levadas por um outro ministro extraordinário, o Sr. Luizinho. Quando tudo estava organizado e, a procissão começou a sair… imagino que seu Celso acelerou de modo brusco, puxando as difusoras das mãos de seu Luizinho que, não estando preparado para o solavanco, deixou-as cair no chão. Os fios se romperam. Eu que estava próximo e acompanhava tudo com atenção, encontrei neste incidente uma maneira de dar minha contribuição e de começar a participar. Imediatamente apanhei as difusoras, e com o pouco conhecimento que eu possuía, re-conectei os cabos e tudo voltou a funcionar, ofereci-me então, para ir dentro do Fusca segurando as difusoras, a proposta foi aceita e, assim seguimos.

Chegando a Matriz de Santo Antônio, a missa foi celebrada, e ao seu término um dos rapazes convidou-me para participar do grupo Congregados Marianos, recentemente criado pelo padre Pedro, e que tinha a missão de rezar o Santo Terço todos os sábados na Igreja Matriz. Fui conversar com o padre e manifestar o meu interesse em participar do referido grupo, mas para meu espanto, ele não me deu a atenção esperada. Não hesitei, e comecei a participar do terço todos os sábados.

Alguns meses depois, falei do meu desejo de ser padre e explicaram que eu devia participar dos Encontros Vocacionais. Assim, com os vocacionados de Cacimba de Dentro, naquela época, uns 5 ou 6 adolescentes, participei do meu primeiro encontro no Cruzeiro de Roma, em Bananeiras-PB . Mamãe ficava muito feliz, pois sempre dizia que eu retornava dos encontros mais paciente e compreensível. Participando destes encontros fui percebendo minhas limitações pessoais. Percebia que os outros jovens sabiam cantar, se expressavam bem, alguns eram coroinhas, ou até catequistas, já faziam celebração da Palavra, enquanto que eu, por morar na zona rural, num sítio pouco povoado, não tinha uma comunidade na qual pudesse desenvolver meus talentos.

O meu primo Sérgio, que era também vocacionado, perguntou-me se eu não queria acompanhá-lo juntamente com outro senhor, conhecido por Manú, nas celebrações da Palavra que eles realizavam nas casas das famílias na zona rural. Aceitei o desafio e passei a acompanhá-los. “Supervisionado” por Manú, comecei a proclamar o Evangelho nas celebrações, e aos poucos já estava fazendo pequenas reflexões. E fui querendo sempre mais. Senti que devia tornar-me leitor para proclamar a Palavra durante a Santa Missa. E assim o fiz. Quando proclamei pela primeira vez a leitura, provei de uma grande ansiedade, li muito bem, a entonação foi perfeita, obedeci cada um dos sinais ortográficos; era comum que a pessoa que fazia a segunda leitura convidasse as pessoas a ficarem de pé para aclamarem ao Evangelho, e foi justamente nessa hora que eu passei meu maior vexame: “Fiquemos de pé e acle, acla, e só por fim, enrubescido consegui pronunciar: Aclamemos o Santo Evangelho.

Continuei participando dos encontros vocacionais e fui selecionado para ingressar no Seminário São José, em Guarabira, no dia 10 de janeiro de 1998. Concluí o Ensino Médio em Guarabira (1998-2000), e ingressei no Seminário São João Maria Vianney em Campina Grande para cursar filosofia (2001-2003). Concluindo a Filosofia, Dom Antonio Muniz, enviou-me para realizar os estudos teológicos em Roma, onde permaneci de 2004 a 2007. Estes anos todos de formação foram fundamentais para que eu pudesse dar passos nas diversas dimensões: humana, intelectual, espiritual.

Hoje, com a distância do tempo, a luz da fé, assim como fez o povo de Israel vejo que Deus falou comigo e chamou-me através dos acontecimentos, serviu-se de pessoas concretas e não de anjos ou arcanjos para lançar o seu apelo ao meu coração. Entendo também, que minha mãe foi um grande instrumento de Deus no meu discernimento vocacional, jamais impondo coisa alguma, mas com docilidade e coragem materna plantou uma pergunta essencial em minha vida. E as perguntas são assim, têm uma força incomensurável, por vezes, são mais importantes do que as respostas. Seguramente eu não era o mais santo dos jovens, assim como infelizmente não sou o padre mais perfeito hoje, entretanto, como bem evidenciou o Papa Bento XVI ao ser eleito: “o Senhor sabe trabalhar com instrumentos insuficientes”.

Após 10 anos de sacerdócio, já tive a oportunidade de fazer aquela mesma pergunta que um dia minha mãe me dirigiu a inúmeros jovens: “você não quer ser padre?”, ao que, a grande maioria sempre responde: “se Deus me chamar eu vou”. Talvez, por trás desta resposta esteja a compreensão do chamado de Deus como algo que se manifesta de modo fantástico, extraordinário, suntuoso, quando na realidade para nos chamar, Deus pode usar como instrumentos: pessoas ou fatos concretos de nossa vida.

Conheço um grande sacerdote que entrou no seminário por influência dos amigos e, porque no seminário havia um campo de futebol. É claro que depois ele precisou reorientar a sua intenção fazendo um caminho de discernimento vocacional. Mas quem pode negar que foi a maneira que Deus encontrou para “pescá-lo” para o seu Reino.

Portanto, a partir do que eu mesmo experimentei, posso afirmar com segurança que não seria sacerdote hoje, se tivesse esperado um sinal vindo dos céus. Quem sabe, é isto mesmo, o que muitos aguardam para darem uma resposta ao chamado que um dia Deus lhes fez através do convite de um sacerdote, ou de algo aparentemente sem sentido.

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