Respeito que pensa, entende e vive diferente, mas direi meu simplicissimamente ‘bem-dito’. Não tenho a razão, posso ter, espero, no máximo, uma razão, um senso, um pitaco. Aliás, enquadro minha fala neste último.

Em momentos de festa, como nestes últimos dias, todas as pessoas parecem saber o que é bom para as outras e, assim, sem a medida do senso, enunciam, aos quatro ventos e geralmente de forma narcisista, desejos e mais desejos para um ‘Natal’ – sempre adjetivado – e para o dito ‘Ano Novo’ que vem. É quase sempre desejos de todos para com todos dentro de um tudo sem nome.

Na verdade – se assim posso afirmar –, isto é, dentro da perspectiva vigente do consumo e da materialidade não simbólica, aquela em que somos o que temos ou aparentamos ter – esta é apenas uma tradição assumida comercialmente pelo ‘mercado das ilusões’, e, assim, desejar algo para os outros – não parece, mas – é bem complicado, pois não sabemos se o outro está disposto a aceitar nossos votos e desejos. E são apenas isso.
Por mais que sejam “desejos gerais” – aqueles que supomos que todos “ofereçam” e aceitem, como saúde, amor, felicidade… –, todos são muito abstratos e formais e, portanto, fogem da pessoalidade e da intimidade próprias dos amigos e familiares, dos que se amam. Pouco significam, pois são desejos formalizados e não ‘presencializados’. Podem até ter – e é comum – a materialidade do presente, mas não tem simbologia da presença.

Desta forma, se desejo ‘Feliz Natal’, admito a possibilidade de existir um ‘Natal sem felicidade’, e isto é, a meu ver, um absurdo. Se há tristeza e infelicidade, não é Natal. Natal é simplesmente Natal. Se o associo com adjetivos ou expressões que o ‘qualifiquem’, estou afirmando que o Natal, como é, é insuficiente. Compreendo, portanto, que a expressão ‘Feliz Natal’ é um pleonasmo. Ao Natal, basta o Natal: a memória da Encarnação do Filho de Deus, Jesus, para a salvação da humanidade, que nos indica exatamente como ser, ter, estar e viver. O Natal traz a riqueza do estado de pobreza: o lugar de Cristo.

Natal, portanto, não é lugar de desejos, nem de festa, nem de caridade. Natal é Jesus. A vivência da caridade é diária e constante e invisível. Festa é viver. E os desejos são próprios de quem tem muito e pouco é e não partilha. Percebam: quem mais deseja, muito tem e não partilha. Não basta o desejo. Assim, que nas ceias familiares, o Jesus – que foi menino –, lembre-nos de Seu nascimento e nos faça contemplar – que é viver a experiência que se vê – uma mulher negra, jovem, moradora de periferia urbana, desempregada, sem escolaridade, com um filho no colo, dentro de uma casa sem iluminação, com panelas vazias, para entendermos que a vida não é o que está em nosso umbigo.

Caridade não se faz e nem é coisa de momento. Quem faz caridade no Natal não sabe o que é Natal nem o que é caridade. Ao cristão, caridade é vivência e não um fazer onde se escolhe o quando.

Simplicissimamente, no meu pitaco, “desejo” (veja as aspas) que, no Natal, no Ano Novo e por toda a vida, você realize tudo o que deseja e que saiba desejar, sem sonhar, sem se iludir. Seja Natal todo dia na vida dos pobres, vivendo a partilha total de si.

Assis Souza de Moura 
Presidente do Conselho Diocesano de Leigos

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