Onde a Estrela parou

A Epifania marca a fase final do ciclo natalino [Historicamente, a festa da Epifania (6 de janeiro) é a data do Natal no Oriente. Mas a Igreja ocidental (latina), que celebrava o Natal no dia 25 de dezembro, conservou a data de hoje com o nome de Epifania, tornando-se um sinal de unidade entre a Igreja oriental e a ocidental.]. Celebra a manifestação (epifania, em grego) de Deus ao mundo, na figura dos reis magos que, representando o mundo inteiro, vão adorar o menino Jesus em Belém.

A liturgia retoma o tema da luz – luz que brilha não só para o povo oprimido de Israel (como na 1ª leitura da noite de Natal), mas para todos os povos, segundo a visão do profeta universalista que escreveu o fim do livro de Isaías (1ª leitura). Jerusalém, restaurada depois do exílio babilônico, é vista como o centro para o qual convergem as caravanas do mundo inteiro. Essa visão recebe um sentido pleno quando reis astrólogos do oriente procuram o messias nascido de Davi – nos arredores de Jerusalém, em Belém, cidade de Davi (evangelho). A 2ª leitura comenta, mediante o texto de Ef 3, 2-6, esse fato como revelação do mistério de Deus também para os pagãos.

Toda a liturgia deste dia é permeada pelo sentido universal da obra de Cristo. Mas para não cairmos no universalismo abstrato e global das grandes declarações internacionais, que nunca chegam até o chão, encontramos aqui, como na festa da Mãe de Deus, a inserção bem concreta de Jesus num ponto “parcial” da humanidade. Mesmo não sendo a menor das principais cidade de Judá (Mt 2,6), Belém não passa de um povoado que os magos nem sequer encontram no mapa. E, contudo, nesse momento, é o centro do inundo, assim como Ezequiel, por volta de 580 a.C., chama a aparentemente insignificante terra de Israel de “umbigo da terra” (Ez 38,12). O ponto por onde passa a salvação não precisa ser grandioso.

Belém representa a comunidade-testemunha, não o império oficial do poderoso Herodes. É centro do mundo, não para si mesma, mas para quem procura o agir de Deus. Não em Roma, nem na Jerusalém de Herodes, mas na Belém do presépio é que a estrela parou. Para mostrar que não depende do poder humano, Deus se manifesta no meio dos pobres, no Jesus pobre.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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