Na comemoração dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, no dia 10 de dezembro de 2018, a Paraíba se tornou manchete nacional com o assassinato de dois camponeses do Movimento Sem-Terra (MST), no assentamento Dom José Maria Pires, na Arquidiocese da Paraíba, nas proximidades de Alhandra. Os dois foram executados.

Pela ganância e pelo desejo de ter, o ser humano é capaz de matar o seu semelhante. Matar por causa da terra é matar por aquilo que não lhes pertence. Ninguém é dono da terra. Quando aqui chegamos, quando nascemos, já recebemos de Deus, a natureza e tudo o que nela contém; ao partirmos daqui, deixaremos tudo como encontramos; qual o rico que leva consigo a sua riqueza? Quem evitou a morte com o acúmulo de seus bens?

Bem disse Jesus: É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. (Mateus 19,24). O problema é este: a riqueza cega e desumaniza; faz com que o outro não enxergue mais o seu semelhante. Para defender o seu suposto latifúndio, se destrói o patrimônio de Deus que nos criou à sua imagem e semelhança. Nunca matar a vida, e matar, por causa dos bens materiais, é o que de mais grave possa existir.

A Paraíba tem história de matança pela terra: João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas, foi assassinado no dia 02 de abril de 1962; em janeiro de 1964, o massacre de Mari, com o assassinato de trabalhadores, conforme relato do Jornalista Nelson Coelho, in memoriam; Margarida Maria Alves, em 12 de agosto de 1983, também foi  assassinada  brutalmente, na porta de sua casa, de forma covarde e perversa, entre tantos outros que foram assassinados, por causa da simples ganância. As vítimas mais recentes: José Bernardo da Silva, conhecido como Orlando Bernardo, e Rodrigo Celestino, coincidentemente na comemoração da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

No velório, muitas entidades estiveram presentes e se solidarizaram com os familiares de Orlando. O MST, inteiramente presente, garantiu não recuar na luta pela terra e por uma reforma agrária justa, que devolva a terra para produzir o alimento para os trabalhadores. A palavra de ordem lembrada foi a RESISTÊNCIA, cada vez mais necessária para tempos de perseguição e morte.

A Igreja da Guarabira como também a Arquidiocese se fizeram presentes. Dom Alderimo, Bispo de Guarabira, presidiu a missa de corpo presente, no assentamento onde morava Orlando, e manifestou o apoio irrestrito à vida dos trabalhadores na sua luta pela terra, assegurando que as duas vítimas deram suas vidas pela vida dos demais na luta pela sobrevivência. Dom Aldemiro manteve sua voz profética, naquele momento, seguindo o caminho de Dom Marcelo Carvalheira e Dom José Maria Pires, dois grandes homens de Deus e do povo, um pernambucano e um mineiro.

A Igreja deve estar sempre na defesa da vida, em todas as circunstâncias, como seu mestre Jesus, ou, pelo contrário, estará contra Ele. Em tempos de perseguição e de morte, os pastores, bispos e padres devem ter a obrigação moral de expor a sua própria vida na defesa do rebanho, a exemplo do Bom Pastor (João 10).

A nossa sociedade está mergulhada numa cultura de morte e de banalização da vida; nós, como seguidores/as daquele que venceu a morte, vamos proclamando que Ele veio para que todos tenham vida plena.

Pe. João Bosco Francisco do Nascimento

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