Tendo o mistério da bondade de Deus diante de nossos olhos, contemplamos com gratidão, na celebração do último domingo, o coroamento do ano jubilar em favor do quadragésimo aniversário da Diocese de Guarabira. A menor e mais nova diocese da província eclesiástica da Paraíba tem muito a nos orgulhar e nos ensinar, pois se faz detentora de um passado precioso marcado por um legado consolidado de histórias, sacrifícios e lutas; fundamento que nos permite respirar um presente missionário preocupado com a evangelização e com o cuidado da pessoa humana. Ademais, permite-nos esperançar um futuro luminoso confiado à intercessão de Nossa Senhora da Luz, padroeira e mãe do Brejo Paraibano.

Fundada no dia 11 de outubro de 1980, pelo santo Papa João Paulo II, a Diocese de Guarabira começa a escrever uma nova etapa do projeto de evangelização na Paraíba. Gestada no espírito do Concílio Vaticano II, a “Igreja Guarabirense” nasce com a preocupação de ser uma Igreja viva e defensora da dignidade humana, numa opção evangélica pelos pobres. Esses aspectos se definem nos primeiros esforços protagonizados por Dom José Maria Pires em favor da criação da Região Episcopal Brejo, constituindo uma etapa singular para consolidação de nossa identidade diocesana e aproximação das paróquias e municípios, que hoje reunidos formam um só corpo eclesial.

Aqui chegado, no dia 15 de fevereiro de 1976, Dom Marcelo Pinto Carvalheira é apresentado como vigário episcopal da Região do Brejo, diante do testemunho de aproximadamente 15 mil fiéis. Em suas primeiras palavras, ao dirigir-se aos presentes, falou sobre a missão da Igreja. Entendemos que sua fala aborda o propósito que a Diocese de Guarabira deveria seguir para permanecer unida a Cristo, quando diz que “a igreja deve possuir um poder, não de dominação ou imposição, mas de serviço, antecipando-se na busca por ajudar as pessoas a descobrirem sua dignidade e seu valor”. Hoje podemos dizer que a Diocese foi fiel a este bom conselho!     

    Escutando o testemunho da história, percebemos que a vocação ao serviço está entranhada em nossa ação evangelizadora. Numa caminhada de quatro décadas, respondendo as urgências de cada período, transpassamos as sacristias e tocamos a realidade, aprendendo com nossos bispos que o serviço a Cristo não está separado do cuidado para com os nossos semelhantes e da atenção às dores do mundo. 

Naquele ato celebrativo, fizemos memorial ao primeiro passo de nossa caminhada como Diocese, que fora dado no alegre dia 27 de dezembro de 1981, data da nossa instalação canônica e posse do primeiro bispo, o saudoso, Dom Marcelo Pinto Carvalheira.  Esse sacerdote era homem de ternura, de acolhimento e de profundidade mística que, guiado por seu cuidado para com a Igreja e com os mais pobres, marcou nossa identidade diocesana em dois pilares: a pastoral vocacional e as pastorais sociais. 

No início da Diocese, nossa região encontrava-se carente de sacerdotes, contando com o heroico número de 12 padres, sendo apenas dois brasileiros, a saber: o monsenhor Joaquim e o padre Epitácio. Esses dois presbíteros receberam o vital e indispensável apoio dos padres Fidei Donum, padres que deixaram suas nações, famílias e amigos para serem missionários em nossas terras, são eles: monsenhor Luíz Pescarmona, padre Celestino Grillo, padre Cristiano, padre Marcos de Santa Maria, padre João da Cruz, padre Eduardo. A esses somam-se os esforços e o suor dos cônegos holandeses: padre Lambert, padre Conrado, padre Leonardo e padre Mateus. Superar essa escassez vocacional não foi fácil, mas graças à intercessão da Virgem Maria e ao trabalho daqueles que aqui estiveram, ainda em seus primeiros anos, essa igreja particular presencia o crescimento das vocações e a ordenação dos primeiros padres filhos do território diocesano. Como marco visível da colheita vocacional, consta a edificação do seminário propedêutico São José, espaço idealizado e construído pelo Monsenhor Nicodemos. 

Também, dentro da cronologia vocacional de nossa história, registramos com reverência a preciosa colaboração da vida consagrada. As congregações femininas e masculinas, na multiplicidade de seus carismas, estiveram ou estão fixando casas de formação e missão nas comunidades, participando da vida e dos costumes de nosso povo, atuando em parceria com as realidades paroquiais.

A bem da memória, não podemos esquecer as pastorais sociais, que no contexto de criação, mostraram-se efervescentes e destacaram-se protagonizando iniciativas que foram além do assistencialismo e objetivaram transcrever o evangelho no horizonte da vida e das dificuldades humanas. Aqui mencionamos, por exemplo, as comunidades eclesiais de base, as escolas de lata, a pastoral da terra e dos agricultores e o Centro Diocesano de Educação Popular (CEDUP). Por influência desse contexto, conservamos uma herança palpável em nosso meio, como a presença da Associações de Menores com Cristo (AMEC), fundada pelo esforço do padre Geraldo e, posteriormente, a casa Talita, constituída através da dedicação do Monsenhor Luiz. Constituem-se, portanto, como espaços referenciais que trabalham no apoio e na promoção das crianças carentes da região.  

 Com a transferência de Dom Marcelo, toma posse, no ano de 1998, na cátedra de Guarabira, o carmelitano Dom Frei Antônio Muniz, homem das letras e da palavra, que adentra nossa diocese como grande devoto do Padre e Mestre Ibiapina. Inúmeras foram suas contribuições, destarte, acentuamos a preocupação com a formação dos leigos. Essa realidade impeliu-lhe a fundar a escola de teologia, edificando um prédio para seu funcionamento, espaço que, hoje, serve aos trabalhos da cúria diocesana. É também datada de seu episcopado a organização de estrutura junto ao Santuário Memorial Padre Ibiapina, em Solânea. Também se enquadra, nesse período histórico, o Memorial Frei Damião, um dos marcos da religiosidade popular do nordeste brasileiro, obra que foi construída pelo monsenhor Nicodemos em parceria com a então prefeita Léia Toscano e o então deputado Zenóbio Toscano. 

Tendo Dom Antônio assumido uma nova missão na arquidiocese de Maceió, é empossado, em Guarabira, no ano de 2008, o terceiro bispo Diocesano, Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena, reconhecido por sua notável organização e singular carisma. Dom Lucena motivou uma renovação dos trabalhos pastorais num processo de aproximação das comunidades e paroquias. Dentre suas iniciativas, patrocinou o crescimento de ações pastorais já existentes, como pastoral da juventude, a pastoral familiar, o Encontro de Jovens com Cristo (EJC), pastoral do dízimo, o Encontro de Casais com Cristo (ECC); e, ainda, abriu a escola diaconal São Lourenço, ordenando 16 diáconos permanentes para o serviço de nossas paróquias. Dentre suas contribuições, salientamos a organização administrativa e econômica da Diocese, que tornou Guarabira, nesse meio, referência para outras dioceses do Brasil. 

Com a transferência de Dom Lucena para Nazaré da Mata, a Diocese de Guarabira passa por uma nova etapa em seu processo de maturação eclesial, recebendo seu quarto bispo diocesano. O baiano, natural da cidade de Ibirataia, Dom Aldemiro Sena dos Santos, chega ao nosso meio no dia 02 de fevereiro de 2018.  Iluminado por seu lema episcopal, “servir ao senhor com alegria”, vem imprimindo seu estilo na caminhada diocesana, motivando as estruturas antecedentes e apontando novos horizontes para nossa história. Inspirado no testemunho do Padre Ibiapina, Dom Aldemiro, faz-nos perceber a crucialidade de dois eixos fundamentais para nossa ação evangelizadora: a missão e a caridade.

Dentro desse contexto, contemplar nosso presente é, para nós, motivo de satisfação, pois temos avançado no propósito de ser uma igreja em saída, uma igreja missionária. Esse aspecto é vivenciado na dinamicidade interna de nossa Diocese, encarnado nos esforços de nossas paróquias, grupos e movimentos, bem como, numa realidade ad gentes, graças ao projeto “igrejas irmãs”, firmado entre a nossa Diocese e a Diocese de Grajaú. O referido projeto é uma experiência única no Brasil entre duas dioceses do Nordeste. Forma-se, então, um intercâmbio que nos permite retribuir os frutos outrora depositados por tantos missionários e missionárias em nossas terras. Tal retribuição se dá pela generosidade de quatro sacerdotes, a saber: padre Leir, padre Jandeilson, padre Magaywer e, agora, padre Rinaldo. 

Ainda, celebrando nosso presente, rendemos graças a Deus por pulsar, de modo sempre renovado em nosso coração eclesial, o espírito da caridade, que nos faz celebrar esse quadragésimo aniversário. Por iniciativa do nosso bispo diocesano, fundamos a Fazenda da Esperança Dom Marcelo Pinto Carvalheira, casa de humanidade que, tocando as feridas de nosso tempo, quer reafirmar o compromisso da Diocese de Guarabira junto aos mais sofridos de nossa sociedade.

Por isso, com exultação te louvamos, ó Senhor, por tua generosidade para com essa porção do povo que Te pertence. Povo alentado pela piedade e devoção, animado pelas novenas e enraizado na Eucaristia. Povo que, trabalhando em comunhão com seus pastores nas diversas manifestações do serviço eclesial, busca crescer na fé, peregrinando na história e formando tua Igreja no Brejo Paraibano. Com profetismo anuncia, nesse ano jubilar, a esperança de viver, sempre mais, novas e belas histórias. 

 

 

Por: Pe. Reinaldo Miguel, diretor do Centro de Estudos Teológicos da Diocese; autor do Livro: “Raízes da Diocese de Guarabira”