Estimados fiéis,

Cada Semana Santa, tornamo-nos idealmente peregrinos de Jerusalém e contemplamos o mistério de Nosso Senhor Jesus Cristo Morto e Ressuscitado. O Apóstolo Paulo, que fez uma experiência viva e pessoal deste mistério na Carta aos Gálatas chega a dizer. “O Filho de Deus me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). O quanto vivenciou o Apóstolo é também fundamento de um novo modelo de fraternidade que deriva da obra de reconciliação e de pacificação operada pelo Crucificado entre as gentes, como São Paulo escreve na carta aos Efésios.

No curso de 2020, o Papa Francisco quis recordar-nos as consequências deste dom de
reconciliação e fê-lo através da encíclica “Todos Irmãos”. Com este texto, o Papa, a partir do testemunho profético proposto por São Francisco de Assis, nos quer ajudar a ler à luz do princípio de fraternidade todas as nossas relações e os âmbitos da nossa vida: religiosos, econômicos, ecológicos, políticos, de comunicação. O fundamento do nosso ser todos irmãos e irmãs, é precisamente no Calvário, o lugar no qual, através da máxima doação de amor, o Senhor Jesus interrompeu a espiral de inimizade, destruiu o círculo vicioso do ódio e abriu para cada homem e cada mulher o caminho da reconciliação com o Pai, entre cada pessoa, com a própria realidade da criação.

As estradas desertas em torno do Santo Sepulcro e da Jerusalém Velha tiveram eco na Praça de São Pedro deserta e banhada pela chuva, atravessada pelo Santo Padre Francisco a 27 de março de 2020, a caminho do Crucifixo: diante disto o mundo inteiro colocou-se como que de joelhos, suplicando o fim da pandemia e fazendo sentir todos como irmanados pelo mesmo mistério de dor.

Foi, portanto, um ano de prova e assim também para a Cidade Santa de Jerusalém, pela Terra Santa e para a pequena comunidade cristã que habita no Médio Oriente que quer ser luz, sal e fermento do Evangelho. Em 2020 os cristãos daquelas terras sofreram um isolamento que os fez sentir ainda mais distantes, separados do contato vital com os irmãos provenientes de vários Países do mundo. Sofreram a perda do trabalho, devida à ausência de peregrinos, e a consequente dificuldade de viver dignamente e prover às próprias famílias e aos próprios filhos. Em muitos Países o persistir da guerra e das sanções agravaram os efeitos da pandemia. Além disso diminuiu a ajuda econômica que a coleta em prol da Terra Santa, garantia cada ano, por causa das dificuldades de a fazer em muitos Países em 2020.

O Papa Francisco ofereceu a todos os cristãos a figura do Bom Samaritano como modelo de
caridade ativa, de amor empreendedor e solidário. Nos estimulou também a refletir sobre diversos comportamentos das personagens da parábola para superar a indiferença de quem vê o irmão ou a irmã em dificuldade e passa adiante: “Com quem te identificas? Esta pergunta é dura, direta e decisiva. A qual deles te assemelhas? Devemos reconhecer a tentação que nos circunda de nos desinteressarmos pelos outros, especialmente pelos mais débeis. Digamo-lo, crescemos em tantos aspectos, mas somos analfabetos no acompanhar, cuidar e apoiar os mais frágeis e débeis das nossas sociedades desenvolvidas. Habituamo-nos a voltar o olhar, a passar ao lado, a ignorar as situações enquanto não nos tocam a nós diretamente” (Todos Irmãos, 64).

A coleta em prol da Terra Santa 2021 seja para todos a ocasião para não voltar o olhar, para não passar adiante, para não ignorar as situações de necessidade e de dificuldade dos nossos irmãos e das nossas irmãs, que vivem nos Lugares Santos. Se diminuir este pequeno gesto de solidariedade e de partilha (São Paulo e São Francisco o chamariam de “restituição”) será ainda mais difícil para tantos cristãos daquelas terras de resistir à tentação de deixar o próprio país, será difícil manter as paróquias na sua missão pastoral, e continuar a obra educativa através das escolas cristãs e o empenho social a favor dos pobres e dos que sofrem. Os sofrimentos de tantos deslocados e refugiados que tiveram que deixar as suas casas por causa da guerra necessitam de uma mão estendida e amiga para deitar sobre as suas feridas o bálsamo da consolação. Não se pode enfim, renunciar do cuidar os Lugares Santos que são o testemunho concreto do mistério da Encarnação do Filho de Deus e da oferta da sua vida feita por nosso amor e para a nossa salvação.

Em tal difícil cenário, marcado pela ausência de peregrinos, sinto o dever de fazer minhas ainda uma vez mais as palavras que o Apóstolo das gentes dirigia aos Coríntios há dois mil anos, convidando-os à solidariedade que não se baseia em motivações filantrópicas, mas cristológicas: “Conheceis de fato a graça do Senhor Nosso Jesus Cristo: sendo rico se fez pobre por vós, a fim de vos enriquecer por meio da sua pobreza” (2Cor 8,9). E depois de ter recordado o princípio da igualdade, da solidariedade e da troca de bens materiais e espirituais, o Apóstolo acrescenta palavras eloquentes hoje como então, e que não necessitam de qualquer comentário: “Tende presente isto: quem semeia pouco, recolherá pouco e quem semeia com abundância, recolherá com abundância. Cada qual dê segundo o impulso do seu coração, sem tristeza nem constrangimento, pois Deus ama quem dá com alegria. De resto, Deus tem o poder de cumular-vos com toda a espécie de benefícios, para que tendo sempre e em todas as coisas o necessário, possais cumprir generosamente toda a espécie de boas obras” (2Cor 9,6-8).

A Vós, aos Sacerdotes, aos Religiosos, às Religiosas, e aos Fiéis, que se empenham para o bom êxito da Coleta, em fidelidade a uma obra que a Igreja pede a todos os seus filhos que se cumpra segundo as modalidades conhecidas, tenho a alegria de transmitir o vivo reconhecimento do Santo Padre Francisco. E invocando abundantes graças divinas sobre esta Diocese, lhe mando uma fraterna saudação no Senhor Jesus.

11 de março de 2021

Leonardo Card. Sandri
Prefeito
Giorgio Demetrio Gallaro
Arcebispo Secretario