Imagem ilustrativa – Fonte: internet

Elevar o olhar em momentos tristes e de depressão é um bom conselho. Abraão, o personagem bíblico a quem por primeiro Deus se revelou como Deus Único, andava triste deprimido, era rico, masficara velho, sem herdeiro e fechado dentro de sua própria tenda.

Então, Deus entra na história dele e o faz erguer os olhos e perceber que os horizontes não eram tão estreitos, mesmo idoso, e tendo como esposa uma mulher de idade avançada era possível sonhar e esperar: “o Senhor levou Abraão para fora e disse: Não tenha medo, olhao céu e conta as estrelas….” (Gn 15) Ele saiu e tornou-se herdeiro da promessa, esperou e creu e foi Pai de uma multidão.

Vivemos tempos difíceis, tudo parece escuro, a tristeza e o cheiro da morte sondam o mundo, nos amedronta e, todavia, é preciso erguer o olhar.

Jesus no evangelho, na célebre parábola do semeador, convida os discípulos a terem olhos que veem e ouvidos que ouvem (Mt 13, 1-17). E a Igreja sabiamente, tem convidado os crentes a sabermos reconhecer os sinais dos tempos.

Parece que o mundo mudou. A mudança de época de que têm falado os documentos da Igreja nos últimos anos, talvez tenha chegado. As dificuldades do tempo presente, quem sabe, podem ser o marco de uma época nova.

Um acontecimento novo, iniciado três ou quatro meses atrás, está mudando a história e obrigará a humanidade a se avaliar e tomar novas decisões. O modo de olhar o mundo com tudo o que ele tem e é, depois desses acontecimentos de doença e mortes, exigirá novas atitudes.

Infelizmente, há quem queira negar os fatos e os dados. Todavia, os que tem bom senso, sabem ver e ouvir os sinais e não se deixarão abater pelos que vivem negando a realidade(“não está acontecendo nada”, “está tudo bem”, “uma gripezinha” – não é a primeira vez que se tenta encobrir  realidade, tempo atrás alguém negava a crise econômica que assolava o país dizendo: “é uma marolinha”).

Penso que o cristianismo,e nele a Igreja “luz das nações” (Vaticano II) e “perita em humanidade” (Paulo VI), tenha muito a colaborar, no sentido de ajudar a humanidade a encontrar caminhos melhores.

A fragilidade da vida, da ciência, do sistema econômico, do sistema sanitário, pode ser vista por todos, atinge a todos – ricos e pobres, cientistas, médicos, analfabetos, artistas, crentes e ateus – de modo diferente (os mais fracos sofrem mais).

Pode ter chegado o momento em que deva ser dito aos poderosos da terra, que a hora presente grita imperativamente que se tenha a coragem de “sair da tenda”dos próprios esquemas de poder e riqueza, e que é necessário, quem sabe, dar “um passo e os pobres poderiam sentar-se àmesa afastando a tristeza da mesa dos egoístasque não podem fazer festa sozinhos.” (Via-Sacra, VI estação – AngeloComastri).

Há quem queira salvar os bancos, o sistema financeiro a qualquer custo, e no entanto a realidade parece reivindicar outra coisa: uma economia humanizada, onde de fato o ser humano seja o valor mais importante a ser defendido; o que Jesus diz sobre a relação do sábado com o homem, mutatis mutandi,  é provável que seja válido para as bolsas de valores: “O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado.” (Mc 2, 27)

O ensinamento social da Igreja tem muito a dizer. A Igreja não nos abandona na dificuldade, pelo contrário, lendo os acontecimentos da história à luz do Evangelho, ela aponta para soluções possíveis: solidariedade, fraternidade, caridade, subsidiariedade, cuidado com a Casa comum, distribuição equânime dos bens da terra, partilha, etc.

Mesmo em meio à crise podemos encontrar tanta beleza no mundo, entre nós. Pensemos aos médicos, aos enfermeiros, aos garis, às atitudes solidarias de sacerdotes, de freiras, do Papa, dos Bispos; tanta luz existe, que nos faz ter certeza que este é tempo de esperança.

Sair da tenda e conta as estrelas, olhar com olhos de ver e escutar com ouvidos de ouvir, para que a amargura, o medo, a ansiedade não consumam nossas melhores energias. Dias melhores estão por vir.

Pe. Elias Sales – Vigário paroquial de Mari-PB

COMPARTILHAR